ORIGINAL DE FÁBRICA
Tava na loja de bicicleta. Bicicleta - Natal. A cabeça rodando. Entra um cara vestido de gari com um papelzinho na mão, e pede pra moça que me atende, a atendente, uma contribuição para o natal dos Garis. Ela diz que já tinham passado por lá de manhã, e que, portanto não fazia sentido dar de novo. O cara se vira, puto, vai saindo de mau humor, resmungando, e atravessando a porta manda essa: "depois vai querer que a gente tire o lixo da loja." Barulho. Que a loja é de rua, então não tem silencio. O mundo está mesmo estressado, pensei, me preparando para sair, e dando a historia por encerrada. Ponto.
Parágrafo, que a moça da loja me presenteou com a seguinte informação deliciosa e surpreendente: esse cara nem gari é. Tinha arrumado a roupa de gari e ficava passando de loja em loja arrecadando dinheiro. Meu Deus, mais um gênio. Brasileiro. Tipicamente brasileiro. Original de fábrica.
Me despedi da moça e fui me embora meio atordoado tipo James Stewart em véspera de Natal, mas dois passos a frente, já infectado pelo vírus do absurdo, brequei: meu Deus, e quem sabe se o filho da puta não era o que passou de manhã e levou a grana? E esse, que saiu puto, não era o gari de verdade? Estava atropelado pela originalidade da conduta. E uma esquina mais tarde desviando de tudo e de todos refleti: vai ver que é por isso que um é malandro e o outro gari? Meu pneu furou. Nesse Natal que passou deu mais dinheiro se vestir de gari do que de Papai Noel. E Feliz ano novo. Que o mundo fique assim cada vez mais engraçado. Amém.




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