Meu avô morreu sábio. Com 94 anos. Ele não morreu, desistiu. Tinha uma consciência assustadora. Adorava dar conselhos, e só reclamava do corpo que não acompanhava a cabeça. Assim, ele ia assistindo com uma clareza impressionante, o ratear de si, até que um dia, acredito eu, não achou mais graça nisso, e resolveu se entregar, e ir. Me lembro que ele devia ter uns oitenta e poucos anos, quando minha avó se foi. No cemitério, depois do enterro, olhando a cova dela, perguntei a ele: “E aí, vô?” E ele me repondeu: “É um mistério.” A partir desse dia, passei a incluir o Mistério como uma categoria da vida. O Mistério existe. E Mistério, é Mistério. Papo de maluco, mas é que existe um algo, que não estamos ainda preparados para observar, que se chama Mistério, e que existe, e é real, e concreto, e deve ser entendido, e respeitado, e aceito como se. Muitas coisas que eram desse mundo do Mistério, hoje, fazem parte do que chamamos conhecido, outras ainda não realizamos, mas já sentimos sua presença, e outras nem supomos. Vitor Hugo, em seu “Trabalhadores do Mar”, diz que, assim como o homem se tornou capaz de observar as águas, suas substâncias, seus habitantes, e pôde assim descobrir milhares de mundos que ajudaram em muito a nos entendermos, haverá um dia em que tornaremos possível a observação do ar, e então poderemos ver tantas coisas, e explicar tantas outras. Mas, enquanto isso, Mistério. Fui educado crendo num Deus único, de barbas brancas que ficava no céu. Dos 20 aos 30 anos, fui desfigurando Deus, fio a fio, até chegar ao total ateísmo. Dos trinta em diante, comecei uma recuperação da figura de Deus. Hoje, eu acredito




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