Durante mais de trinta anos da minha vida, eu fui um homem do teatro. O teatro era minha Igreja, minha família, minha profissão, único lugar de satisfação, onde estavam meus amigos, meus amores, meu desejo, minha curiosidade, minha paixão e minhas tristezas. Durante, pelo menos, trinta anos, dei a vida por ele com muito prazer. Talvez porque, diferente de meus amigos que pulavam de profissão em profissão, tentando se encontrar, eu sempre soube, desde a adolescência, que queria ser um homem do teatro. Sempre quis, desde que fui encantado por ele, desvendar seus mistérios, descobrir seus princípios e conhecer seus deuses. Mas, um dia eu acordei e percebi que estava sem “vida pessoal”. Como aquela historinha da criança que está diante da televisão durante toda manhã quando, de repente, a emissora sai do ar e entra uma voz em off que diz: “Interrompemos nossa programação para avisar que está um dia lindo lá fora!” Pois bem. Acordei. E me vi mofando. Pois, como dizia eu mesmo: “gente de teatro, mofa”. Tinha passado anos me escondendo do mundo no Teatro, meu abrigo antiaéreo. Então eu, que sempre achei que “só valia a pena fazer Teatro se valesse a vida”, estava em crise. Como dar a vida para o Teatro se eu não tinha vida? Se eu não tinha vida a oferecer? Não tinha vida própria, pessoal, íntima. Não tinha vivido nada. Não sabia de nada, a não ser por intermédio de alguém, de personagens, de ficções. Eu era um ser cênico. Era o “Eduardo Wotzik, diretor de teatro”. E me orgulhava do diretor que era. E era tão sintomático que me lembro que ao chegar perto de alguém para me apresentar, tinha que arranjar um jeito de dizer que era o “diretor de teatro Eduardo Wotzik”. “Oi, oi, tudo bom? Tudo bom. E você, tudo bom? Sou o diretor de teatro Eduardo Wotzik, e você?” De repente, comecei a entender que havia algo de ridículo nisso. “Quem é você? Sou o diretor de teatro Eduardo Wotzik.” Mas, diretor de teatro era a minha profissão. Então eu sou a minha profissão. Então estou confundido com minha função social. Então quem trepa, vai ao banco, toma café da manhã, vai a festas, faz aniversário é o “diretor de teatro Eduardo Wotzik”? Mas, e eu sou quem? Está claro que o “diretor de teatro Eduardo Wotzik” sou eu. Mas, e eu, sou quem? Se não estivesse dirigindo, dando aulas, palestras, funcionando como diretor, me apresentando como um não tinha assunto, interesse, não me reconhecia. Quem conhecesse o “diretor de teatro Eduardo Wotzik” e, a seguir, conhecesse a pessoa, era imediatamente tomado de uma profunda decepção. Resolvi acordar. Antes tarde. E descobri que o Eduardo “diretor” não tinha nada a ver com a “pessoa”. E comecei a dissociar um do outro para ver se o tal “pessoa” aparecia que não era possível que eu não fosse. Mas não fosse o quê? Tinha que desconfundir. Tinha que sair do ensaio e esquecer que era diretor. Fechar a porta do escritório e ir viver minha vida. E aí, é importante explicar para quem não é do meio, como é o meio. Você ensaia de cinco a seis horas por dia e, no final, óbvio, não consegue ir para casa e dormir de tão excitado e com fome. Então, vamos jantar. Quem vamos? A uma da manhã? Só mesmo as pessoas que estavam ensaiando contigo. E aí vamos para um restaurante ou para um bar, comer e, naturalmente, falar sobre o ensaio, é claro. Anos disso. E acorda e começa a trabalhar para o ensaio. Então, 24 horas em função. Durante anos. Bom, mas tem as folgas. Nas folgas, você tem que ir ver os trabalhos dos colegas porque, senão, eles ficam chateados e não vão ver o seu. Ou então, acontece como naquele meu Natal inesquecível, quando estávamos a beira da estréia (dia 08 de janeiro), e resolvi dar folga para todos. Ótimo. Natal. Folga. Eu em casa. Folga. Natal. Toca o telefone. Resolvi não atender. Mas, não pude deixar de ouvir na secretária o ator principal do espetáculo, que estava em Porto Alegre passando o natal com sua mãezinha, dizendo que sentia muito, mas que estava muito chateado com a outra atriz que estava fazendo o espetáculo e que achava melhor sair da peça, e que eu, então, estava livre para substituí-lo para a estréia. Não atendi. Só depois de trinta anos de carreira é que consegui fazer isso. Não atender. E ele ficou ligando 24, 25, 26, e deixando recado na secretária, até mudar de idéia, sozinho e se apresentar normalmente no dia 27 para continuarmos os ensaios. O referido ator estreou com enorme sucesso, foi indicado para todos os prêmios e nunca falou no assunto. Vida de Teatro. De diretor é ainda mais cheia, que tem sempre um para te alugar, como acabei de contar, além do tempo do ensaio. O pessoal acha que a gente é psiquiatra, pai, irmão, amigo, mãe, filho, além da estafante função de criar e dirigir o espetáculo. Mas eu gosto. E me divirto. Mas, preferia que fôssemos, todos, mais profissionais e menos família. Que todos soubessem que, no momento em que você adentra o espaço do teatro para ensaiar, você adentrou um espaço profissional, onde todos estarão jogando cenicamente, brincando de ser alguém, sendo atores, fingindo e podendo fingir ser alguém, que do espaço para fora, você não pode ser. Que eu pudesse dirigir atores e personagens e não ter que tratar da cabeça das pessoas. Mas, mesmo assim, eu gosto. E me divirto. Mas demanda tempo. E vida pra gastar. E naquele momento, eu não queria mais dedicar todo o espaço do meu hd de vida com o Teatro. Queria descobrir os encantos de uma vida pessoal. Me lembrei do dia em que fui dirigir um show de dois importantes cantores e compositores e que eles me apresentaram umas 50 músicas que tinham sido seus hits dos anos oitenta e que qualquer pessoa saberia cantar de cor. Minha empregada sabia, minha assistente sabia, o público sabia frase a frase, mas eu não. Eles tiveram que me perguntar: “meu querido” diretor de teatro Eduardo Wotzik”, onde é que você esteve nesses últimos dez anos?” A resposta: “dentro do Teatro”. Aprendendo, estagiando, atuando, produzindo e dirigindo. Droga, eu não quero falar de teatro. Esse assunto queria deixar para outros tomos de memórias. Aqui, só estilhaços da tal “vida pessoal”. Bom. Enfim. Me perdi. Ah, sim. Precisava me achar e ter vida pessoal. O que eu tinha que fazer? Primeiramente, arrumar uma namorada que não fosse do meio. E eu arrumei. E ela até exagerava um pouco. Não precisava tanto. A ponto de uma vez, depois de um espetáculo meu, sentarmos no baixo gávea (para quem não sabe, reduto de encontro de jovens cariocas), eu, ela, Millor Fernandes, Cora Ronai, Chico Caruso e a Eliana, sua mulher. Deu quinze minutos, ela já estava aflita na mesa. Meia hora, e ela queria ir embora. Fui. Mas eu não pude deixar de ficar chateado de sair, daquela maneira, de uma mesa com artistas e gente da melhor espécie e companhia. E que tinham se deslocado de suas casas para ver meu espetáculo. Mas ela, nem aí. Me puxou para ir embora. E acrescentou sem titubear: “Você acha que eu ia passar a noite com esses velhos?” Ela exagerava. Mas foi bom pra mim. “Foda-se se você é diretor, se fez isso ou aquilo. Eu quero saber é se você é legal, me faz feliz e me come bem”. E aquilo era importante pra mim. Quebrava regras. Desfazia mitos. Destruía meu ego cênico. E assim fui, durante anos, tentando me melhorar. O resultado desse esforço de descobrir-me. Cinco anos mais tarde, estava em casa quando um amigo, que não era de teatro (agora eu tinha um) ia sair com uma menina que tinha uma amiga que também não era de teatro, e então, eu fui. Acabamos indo para um restaurante na Barra onde outras nove pessoas estavam à mesa. Todas absolutamente desconhecidas de mim. E eu, então, fui aos poucos dizendo uma coisa, depois outra e não deu quinze minutos e todos à mesa estavam totalmente vidrados em mim. Até que, só no final da noite, alguém perguntou: “você faz o que?” E, então, percebi que tinha evoluído, que tinha conseguido me fazer interessante, independente da minha profissão, e que não precisava mais me esconder atrás dela. Meu amigo disse que não ia contar o que eu fazia e eu topei a história, deixando aquelas quinze pessoas (já eram quinze), em estado de curiosidade e fascínio. Parece besteira. “Metidice.” Mas não importa. O fato pra mim teve enorme importância e funcionou como um maravilhoso termômetro quanto à minha capacidade de mudança. Começava a existir. Um homem em gerúndio. Com novos caminhos. Pedras. Problemas. Perguntas. Néctar. E memórias. Vivas. Que se materializam aqui, onde houver um espaço em branco, em palavras, num exercício adorável de me sentir sido e sendo. Viver é mágico.